AMBIENTE DE TRABALHO

CATEGORIA: CATEGORY: Exposições Colectivas

Intervenção site specific para Toxic: O Discurso do Excessoprojecto Terminal, organização Plano 21, Fundição de Oeiras, Lisboa.

Os conceitos de rede e conexão encontram-se, a par com o de realidade, dentro dos campos da nossa linguagem mais afectados pela revolução que deriva dos recentes avanços das tecnologias da comunicação. A banalização de termos como estar ligado, estar em rede, redes públicas e privadas, de trabalho ou domésticas, e a sua integração na linguagem corrente, onde aparecem muitas vezes plasmados a outros campos e em sentido figurativo, teve o efeito de sublinhar ligações e particularidades das estruturas sociais e grupais que, não sendo novas, à força da evidência se tornaram praticamente consensuais. No exemplo da obra de Mafalda Santos, “Ambiente de Trabalho”, cujo título nos remete imediatamente para o universo da interface Windows (aqui em português e numa tradução deliciosamente polissémica quando comparada ao seco e estéril “Desktop” original) e que utiliza o seu sistema de organização para, através de uma composição diagramática criar uma imagem simplificada de um momento/lugar de um grupo social e profissional. Sem ambicionar uma posição crítica, atrevo-me a escrever que limitada a uma postura documental, até porque utiliza a linguagem do ordenador, criada visando a universalidade através da redução ao mínimo da possibilidade de subjectividade e divergência. Quando, sobre uma cronologia ou um topos, mentaliza e representa um sistema de pessoas (do qual a autora faz invariavelmente parte) e os seus vínculos, organizando-as através dos seus nomes e títulos de projectos tal como se tratassem de designações de pastas (folder), evidencia a composição e o funcionamento, as proximidades e as diferenças e, finalmente, os limites e fronteiras do ambiente de trabalho da artista, que é, sem mais, o círculo e o campo das últimas gerações de Belas Artes.

A utilização do Alfabeto, e através dele a representação de nomes, veio expor (não arrojo um explicar porque ainda não está provado) o anterior trabalho gráfico sobre estruturas de rede; linhas contrastando contra fundos criando, através da irregularidade do traço, singularidades volumétricas, invocando representações orográficas geometrizadas pela ampliação da unidade mínima da composição (píxel). Nestes casos a rede não é substantiva, não determina ou localiza sujeitos ou objectos, não tem qualquer pretensão cartográfica. As pinturas apresentam-se como resultado de um momento que a artista cataliza, exprimindo um instante e um corte, uma figuração bidimensional de uma realidade que se exprime e opera sobre um número indeterminável de eixos. Esta rede, que achamos óbvia, constrói-se e mantêm-se através dos processos de inscrição, troca, nexo de obrigação mas, para se manter e regular importa e utiliza um número infindável de variáveis. Através da sua representação podemos apenas captar um pormenor e um momento que vive sempre na ameaça de logo deixar de ser assim.

Houve já quem tenha arriscado dizer que o verbo ser é a  exacta origem do mundo, uma primeira causa que possibilita e contêm em si toda a gramática da criação, mas na contemporaneidade começam a avolumar-se suspeitas sobre um pretenso campo consciente que indizível porque anterior (ou exterior) ao verbo não deixa contudo de parecer-nos transmissível. A quântica revela-nos que cada partícula do nosso corpo está emparelhada com outra que tanto pode estar mesmo ao seu lado como do outro lado da galáxia e também que estes pares de partículas tem a capacidade de comunicarem o seu estado (spin e carga) instantaneamente uma à outra.

A partir deste momento podemos ver e estruturar um Universo em que todas as suas partículas estão ligadas umas às outras através de diversos tipos de ligações formando uma hiper-rede em que a informação flúi sem tempo e na qual é total e totalizante porque está toda e em toda a parte. Quando falamos deste campo de fronteira do transmissível sem tempo e sem palavra (porque o verbo é tempo) referimos então uma estrutura de rede (network) que é em si, mais do que a acção, a própria história da acção porque ocupa indivisível a plenitude do tempo. Se falamos de física, podemos também ir buscar à poesia a imagem pura daquilo que não cabe nas palavras, mas que se sente e pode ser partilhado como verdade íntima. Um mecanismo de uma arquitectura tão simples que não pode ser sujeito a afastar-se de si no caminho da expressão, alguma coisa que está lá, sempre que não estamos a olhar.

Interessa chegar aqui pela razão simples de explorar o sentimento (paranóico ou não) de que a forma como nos ligamos terá ela própria um nexo. Este sentido da ligação pode ser entendido como uma essência da linguagem, estrutura que produz e é produzida pelas nossas redes. A linguagem é a nossa porta para o mundo, os indivíduos ligam-se como neurónios, a nossa estrutura cognitiva processa o pensamento obliquamente entre as dimensões do excesso e do defeito. Já é comummente aceite que o nosso cérebro não nos indica, geralmente, onde está um objecto mas faça uma média e nos indique o sítio onde deveria estar permitindo que seja possível ver coisas, por exemplo, em áreas cegas da nossa visão ou um cachecol no pescoço de alguém simplesmente porque ele estava lá há uma hora e deveria persistir estando. O conceito de obliquidade explica-se pela necessidade de saltar passos para chegar mais rápido a resultados (que é, aliás, um processo indispensável à construção do conhecimento através da memória e da referência). Os sistemas óptimos saltam os passos certos e são, por isso mais competitivos (mas nem sempre mais fiáveis). Na sequência desta linha de pensamento existe a evidência da geometria fractal que, postulando que a parte é igual ao todo ou que, pelo menos, contêm em sim o essencial do corpo de dados da estrutura global, nos faz acreditar que saltar passos não será assim tão perigoso porque a informação está protegida através da repetição. Este tipo de organização e esta facilidade esquemática são utilizadas no trabalho de Mafalda Santos como se de um jogo de côncavo/convexo se tratasse; a abstracção das suas representações permite em simultâneo entender os trabalhos como uma análise macro e micro, sendo que a complexidade com que percepcionamos o sistema é determinada pela distância do observador e pela capacidade dos seus instrumentos de ampliação e redução (excesso e defeito). Aqui importa acrescentar que nos referimos também a “Ambiente de Trabalho” onde a utilização dos nomes se torna redundante quando a pintura é vista a uma certa distância e são apenas percebíveis como traço ou mancha mas onde, existindo um registo da escala, se perde a ambiguidade que caracteriza as outras séries.

Consideração sobre o trabalho de Mafalda Santos, José Roseira, 2005.

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