THE KAPPA EFFECT

CATEGORIA: CATEGORY: Exposições Individuais
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Intervenção site-specific no projecto “A Montra”, Calçada da Estrela, Lisboa

THE KAPPA EFFECT, JOSÉ ROSEIRA


“… As I write these words, even so as to be able to write them, I am pretending to a unity that, deep inside myself, I know now does not exist.”
William Hamilton


O tema das redes, da organização da informação, o ensaio visual sobre realidades tão diversas como as correlações entre agentes culturais, elementos de uma bibliografia ou eventos específicos são o objecto recorrente do trabalho de Mafalda Santos. Acompanhando o seu percurso podemos aperceber-nos do desenvolvimento de uma pesquisa tornada progressivamente mais complexa, os contornos da qual são já visíveis na exposição individual que apresenta em 2004, no espaço PêSSEGOpráSEMANA, um dos palcos da cena alternativa do Porto entre 2000 e 2007, de que também era programadora. Em Blackboard (2004), a artista avança para a representação das redes através da organização dos nomes dos seus actores, trabalho que continuará a desenvolver em Ambiente de Trabalho, realizado no âmbito do projecto Terminal (Fundição de Oeiras, 2005), e em Maze (Museu de Arte Contemporânea de Elvas, 2009). Em Too Loud a Solitude (Mad Woman in the Attic, Porto, 2006) parte para a exploração de uma bibliografia emocional, reprodução de uma estrutura mental que pode ser identificada com um processo de aprendizagem. Em 2009, ainda nesta linha, apresenta One day every wall will fall (Galeria Presença, Porto) onde relaciona factos políticos com exposições internacionais realizadas depois da queda do Muro de Berlim.
 
The Kappa Effect, exposição produzida para a Caroline Pagès Gallery, surge como a continuidade deste processo e especialmente ligada ao trabalho apresentado em 2010 sob o título The Great Unconformity (Sala do Veado, Lisboa), onde Mafalda Santos problematizava os processos de inscrição na construção das narrativas. No trabalho agora apresentado, a artista alarga o escopo desta problemática à natureza da percepção. Se o erro, o desvio e a omissão têm um papel fundamental na construção da nossa história, devemos também armar-nos contra os limites e desvios inerentes à forma como os nossos processos cognitivos codificam o mundo. Se na primeira exposição se discutia a memória, agora, em The Kappa Effect o problema central é a percepção. A série de pinturas em acrílico, com formas evocando íris, denuncia esta intenção e sugere a ideia de um movimento concêntrico – definindo o lugar da linguagem, tal teatro cartesiano. Face a esta centralidade, somos obrigados a articular a ideia do eu, logo contrariada pelas instalações na parede (desenhos de papel), contraponto à nossa intuição, apresentando amostras de tempo dobrado sobre si próprio. Estes desenhos não sugerem uma centralidade, antes propõem a ideia de um sistema orgânico, convoluto, que não se pode tocar porque é, ele próprio, participado por todos os seus elementos. A referência a Tales of Space and Time, contos de H.G. Wells no interior dos quais tempo e espaço se dobram – e onde podemos encontrar pontes fantásticas entre um antiquário londrino e uma torre marciana – representa a habilidade transformadora dos nossos sistemas cognitivos, que têm em si a chave do tempo e são capazes de alterar a estrutura do espaço.
 
Afinal, não há uma história nossa – nós somos a nossa história. Todos estes processos – e aqui incluímos o erro, o revisionismo, a omissão, a amnésia e o engano – são elementos de um corpo e colaboram na construção de um sistema competitivo que chega a nós na ideia do eu. A progressiva detecção de todos estes erros, falhas e desvios, constituem um primeiro conjunto de pistas que, nos últimos 50 anos, começaram a sugerir que a unidade do eu (self) seria uma ilusão imposta pela linguagem e permitiram começar a desmontar a noção de teatro cartesiano, um lugar no cérebro onde a consciência se formaria. Aparentemente, tudo é mais complexo, e “eu” não serei mais do que uma ressonância – milhões de operações simultâneas, participadas por um número incomensurável de funções, muitas vezes em conflito, sobrepostas, redundantes, dobradas sobre si.
 
Com “The Kappa Effect” Mafalda Santos salta da inconformidade, da falha no registo ou memória, para os problemas directos da percepção. Apesar de apreendermos o tempo como contínuo e indivisível, nos processos que organizam e dão origem ao fenómeno da consciência contam-se inúmeros casos de “negociações intertemporais”, sobreposições entre eventos passados e futuros que nos impedem o acesso a uma cronologia exacta da sequência dos eventos em que participamos. O termo efeito kappa diz respeito a um fenómeno que pode ser observado considerando, por exemplo, uma viagem feita em duas partes com a mesma duração. Entre estas duas partes, a que compreender mais distância será sempre percepcionada como a mais morosa. Na sugestão de uma viagem, a artista apresenta propostas sensíveis, focando-se nas deformações com que percebemos e concebemos o tempo e o espaço. A ideia de narrativa oferece-se enrolada. Como estruturas conscientes entre o tempo linear e aquele que entendemos, estamos limitados às restrições do segundo.

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