Group Show Pontas Duplas/Split Ends, curated by Aida Castro, Galeria Presença, Porto
PONTAS DUPLAS SPLIT ENDS
15 April to 5 June 2021 Curated by Aida Castro
Artists: Álvaro Lapa / Carlos Mensil / Colectivo SEM-FIM (Beatriz Sarmento e Yasmine Moradalizadeh) / Diana Geiroto Gonçalves / Elisa Pône / Gustavo Sumpta / Helena Almeida / Noé Sendas / Mafalda Santos / Miguel Palma
As pontas duplas aparecem quando a cutícula, que é a parte exterior do fio, está danificada ou ressequida. As pontas duplas são cabelos espigados, cujas extremidades abrem: a partir-se em dois, três ou mais. Split ends, tradução do termo, também indica a estratégia de dobrar os fins, de os fintar e de os multiplicar para que não se fechem unívocos. Split é um termo vulgarmente utilizado para tornar um ecrã, no mínimo, duplo. Nesta exposição foram reactivadas pontas duplas encontradas no percurso da Galeria Presença e no trabalho dos artistas que representa, que de novo se instalam através da ocupação dos objectos convocados para o espaço. Esta prática de montagem permite ainda imaginar outros encontros artísticos que inventam novas ligações. Quer dizer, DUPLAS.
Descobrimos que Álvaro Lapa realizou na Galeria Presença uma exposição intitulada Retratos Duplos Corpos (1995). Sobre esta existe uma pequena publicação que reúne as obras mostradas e um texto que se divide nas três partes do título. Diz assim sobre duplos: “Duplos são figuras cuja significação é a de representarem o sujeito que se vive por eles e se difere por elas. Vivendo-se pelos duplos não se vive no sentido despreocupado do termo, mas vive-se no sentido preocupado de um ser-para-a-morte. O duplo enfrenta a morte como uma realidade que aceita e nessa medida exconjura, pois o sujeito construtor do duplo dispensa-se por ele de morrer. «Ele morrerá eu não, eu estarei dentro», escreveu Beckett.” (Lapa: 1995)
As duplas, aquelas que arriscam de novo a se apresentar e também aquelas que se inventam na procura de posição, são forças de corpos diferidos e instalados na circunstância actual do fazer artístico, reproduzindo nos cruzamentos e sucessivas duplicações múltiplas cumplicidades. São então estas pontas duplas capazes de imaginar, através das materialidades artísticas convocadas, encontros inesperados que se estabelecem entre gestos, toques, vapores e pesos.
Helena Almeida / Álvaro Lapa, uma ligação inventada que incide sobre a relevância da articulação entre artistas e o percurso da Galeria Presença: esta dupla está aqui para nos indicar o espaço nas obras, material e de alcance, que é desejável tornar a ocupar sem enquadramentos rijos. O acervo é constituído por várias obras de Álvaro Lapa e mostram-se quatro sem título, entre estas, os desenhos que elegem a mesa como objecto situado e operativo. Há também um navio opaco que permite desequilibrar qualquer monocromia. “Sente-me”(1979), de Helena Almeida, está junto. E pode parecer um equívoco, diriam, mas não: está aqui porque transmite em simultâneo as entradas variadas nos corpos. A corporeidade desta obra é hoje uma urgência e uma indicação que compromete diversamente quase todas as outras convocadas para esta exposição: há um sentido gestual, uma performatividade implícita, nos objectos que aqui chegaram.
Mafalda Santos / Gustavo Sumpta, uma ligação reactivada a partir de uma exposição que aconteceu nesta galeria em 2007. “Entre Mafalda Santos e Gustavo Sumpta existe a dicotomia do deserto, dividido sempre em dois – dia e noite – pela imposição de um território tão perfeitamente homogeneizado, árido. Através de um jogo de oposições, de cores e de materiais, falam da amplitude da distância, criam distância, são trabalhos que se vinculam pelo contraste.”, escreveu José Roseira no texto de sala. Duplas não quer dizer repetição. Através das tensões e dos pesos é possível retirar das ligações experiências da complexidade. Gustavo Sumpta volta à galeria com Desceremos à gorja mudos (2021), uma gravidade desmedida que faz referência ao poema “Virá a morte e terá os teus olhos” de Cesare Pavese. A peça foi realizada a propósito desta exposição, mas sobretudo a propósito da intensidade do trabalho que expõe quase sempre as pontas tóxicas do nosso tempo como “um elogio aos que teimam em estar vivos”, nas palavras do artista. Em frente, a aparente subtileza de um objecto de Mafalda Santos realiza a mutação da palavra para os códigos binários num poema inscrito: um fragmento de Tisanas de Ana Hatherly. Mafalda Santos trabalha a tradução impossível entre vários media e os atravessamentos dos interfaces que regulam a visibilidade, dando conta da ubiquidade do funcionamento dos sistemas e dos seus limites. A monocromia desta tradução é, nesta exposição, seguida por uma sequência de quadros sobre o sample e a mancha da cor que permite a entrada nos vapores da próxima sala.
Miguel Palma / Elisa Pône, uma ligação reactivada a partir da exposição As ratazanas não dão voltas na cama, na Galeria Caroline Pagès, 2016. Este novo encontro tira partido dos tais vapores. Das máquinas e dos seus fumos aqui realizados pela transformação da toxidade, não apenas, através da experimentação estética, mas como condição de toda a produtividade capital. Miguel Palma sempre nos colocou perante a vertigem do tecno-sublime em diferentes escalas e, plasticamente, perante variadas definições de assemblage — estão peças a cair por todo o lado: dos desenhos à sala, desintegração técnica. Cemitério de aviões (2012), motores esverdeados e parte de um Cérebro (2020) sintetizado a metal, proto-algoritmo das nossas máquinas.
Habita nesta sala uma crepitação, uma estridência. É sonora e vem do filme I’m looking for something to believe in (2007) de Elisa Pône, explosões testadas nas múltiplas ocupações que realiza, pirotecnias e combustões que se fiam nas mãos: uma arte de empregar fogo. Finir Brûler (2021), díptico realizado para esta exposição, é a hipótese de uma cristalização desses vapores e dessa fumaça, coordenando os motores com as experiências químicas, fazendo escutar um tempo incendiário e as marcas das suas paletas.
Diana Geiroto Gonçalves / Carlos Mensil, uma ligação inventada situada na primeira sala da exposição. Esta invenção realiza fenómenos de alto contraste e sentidos para o gesto performativo nas metodologias do fazer artístico. No trabalho de ambos há a coordenação de forças díspares e a presença de subtis artifícios de inversão, provocando estranheza e sensações fortes. O trabalho de Diana Geiroto Gonçalves montou-se, quer dizer, as peças que colecta no atelier são participantes da actividade de um depósito contínuo e sofrem várias torções físicas até chegarem ao espaço, à parede, à prateleira e ao chão. É a precisão das mutações incididas que os tornam agudos e materialmente discerníveis. A posição que optam deriva dos limites da objectualidade inventada e dos seus fenómenos porvir: Validating your Mouth Shut (2020), um aziar como relicário. Destorcer. Distorcer (2018), a verticalidade do tronco um completo artifício. Do lado oposto encontram-se três desenhos reprodutores. No vazio (2020) de Carlos Mensil pode não haver tempo e o espaço é uma ambiguidade, mas cronometra: há motores a funcionar. No conjunto, as três peças são alvos que nos parecem olhar, mas poderiam ser relógios sem numerais. E a questão é mesmo essa, reconhecemos no movimento circular das esferas de metal (ímanes), que produzem os desenhos, os constrangimentos dos nossos dias. O loop que as faz funcionar é perturbador na evidência desta clareza sobre o presente, sem deixar de apontar para a falsidade de todas as rotinas e para os gestos configurados num template.
Colectivo SEM-FIM / Noé Sendas, uma ligação inventada que se instala de propósito na montra. O Colectivo SEM-FIM (Beatriz Sarmento e Yasmine Moradalizadeh) escolheu trabalhar a partir da fotografia Wallpaper Girl (Saint Lourain) (2015) de Noé Sendas. E com esta escolha aprofundaram questões performativas ligadas à actividade colectiva, tendo como referência esta imagem inquietante que apresenta a reprodução dos corpos, duplos: corpos gémeos, separados pelas semelhanças, cópias indistinguíveis pela ausência dos rostos, representação infiel cuja diferença é percebida pelo significado atribuído aos gestos dos dedos. Encontro-te a encontrar-me (2021), vídeo-performance do colectivo, procura essa diferença no vocabulário táctil como aproximação do gesto ao toque. Na proposta de (re)iniciar e largar as posturas do distanciamento e da divisão, nas palavras das artistas, “expandimos os nossos limites para chegar ao Outro, manifestamos o afeto e o desamor num diálogo gestual”. Nesta montagem da montra as obras convocadas enquanto duplas estão a arriscar posições e anunciam fortemente as ligações operadas no resto da exposição. É uma abertura ao desenvolvimento no interior, que só pode ser vista de fora.
Aida Castro Abril, 2021


