THE GREAT UNCONFORMITY

CATEGORIA: CATEGORY: Individual Exhibitions
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Solo exhibition at Sala do Veado, Natural History Museum, Lisbon


 “The Great Unconformity” is a set of works that explores, at a pictorial level, issues related to the visual representation of ideas such as the accumulation, succession and interconnection of elements in space and at a given time.
 Questioning the possibilities of a linear and chronological registration of stocks, the installation that presents itself explores the “failure” as the protagonist of its history.
 Emphasizing the importance, both of what is included and what is hidden, obliterated or forgotten in the construction of a narrative.
 An “unconformity” or “discrepancy” represents a void in the recording of geological time, and in the information about the changes that originated it. It is verified each time that a layer of rock has not been deposited, or that it has eroded in the meantime and has been covered by younger layers. These geological peculiarities are frequent, representing time gaps in Earth’s history, like the missing pages of a book.
 “Great unconformity” is a failure, visible across the globe, of a period of time that can range from 250 to 1200 million years, which represents more than a quarter of the Earth’s lifetime.


THE GREAT UNCONFORMITY
Texto de Susana Gaudêncio
“Porque o tempo do ser vivo é breve, mas sob a terra o morto escondido vive um tempo eterno.”
Sófocles
Em The Great Unconformity Mafalda Santos apresenta um conjunto de trabalhos que analisa, a nível do discurso pictórico e do discurso metafórico, questões ligadas à representação visual de ideias como as de sobreposição, acumulação, sucessão e interligação de elementos no espaço e num determinado tempo.
Uma “unconformity” ou “discrepância” representa um vazio no registo do tempo geológico, e na informação sobre as mudanças que a originaram. Verifica-se de cada vez que uma camada de rocha não se depositou, ou que entretanto sofreu erosão tendo sido coberta por camadas mais jovens. Estas peculiaridades geológicas são frequentes e representam hiatos de tempo na história da Terra, como as páginas ausentes de um livro.
História é a ciência que estuda o Homem e a sua ação no tempo e no espaço, concomitante à análise de processos e eventos ocorridos no passado. Por metonímia, o conjunto destes processos e eventos.
The Great Uncoformity explora a “discrepância” como protagonista da sua história. Realçando a importância, tanto do que é incluído como daquilo que é ocultado, obliterado ou esquecido na construção de uma narrativa. Na série de dez telas, Mafalda Santos avança com uma possibilidade para a representação e ocupação dessa “ fallha” utilizando uma iconografia reminiscente dos gráfico ou diagramas de cronologias históricas, questionando a sistematização e registo linear de factos, experiências e narrativas.
A “falha” apresenta-se como uma ausência de indicios que comprovam um facto histórico ou narrativo.  Mafalda Santos numa atitude de oclusão quer preencher o espaço e o tempo obliterados, talvez para uma tentativa de reescrever a história. Em The Great Uncorformaty nomeia-se a falta, caracterizando-a. Como se de uma terapia para combater uma amnésia orgânica ou psicológica se tratasse.
Com a instalação das telas a artista representa uma expansão do tempo, afim de prencher essa lacuna geológica. Para materializar essa ausência são anotados novos factos, que se sucedem através da sobreposição múltipla das telas por sua vez inscritas com barras horizontais paralelas de comprimentos diversos e pintadas em 30 tons de cinzento diferentes.
A instalação torna-se corpo e prova de uma narrativa não-linear idealizada pela autora, e que não segue a sequência cronológica oficial; desenvolve-se descontinuamente, com saltos, antecipações, retrospectivas, cortes e com rupturas do tempo e do espaço em que se desenvolvem as acções. A peça aparece convenientemente recontextualizada num cenário imbuido pelo espirito científico – a  Sala do Viado no Museu Nacional de História Natural.
O protagonismo da falta ou da ausência na cronologia do tempo  em detrimento daquele que é visivel, palpável e efectivo, é representado, principalmente, a partir do trabalho pictórico efectuado nas variações do cinzento.  A hierarquização que a autora faz dos diferentes tons representa-o.  A distância do observador controla a identificação do trabalho ou com uma visão mais genérica (macro) ou mais particular (micro) da história, podendo criar-se uma analogia ora com as grandes narrativas, ora com as pequenas. Mas apesar dessa hierarquia de cinzentos eles partilham todos de uma natureza comum, tornando a sua intenção ambígua e inesperada.
A leitura de The Great Uncorformity convoca ainda aquilo que são consideradas as primeiras manifestações paratextuais ocorridas nos séculos XVI e XVII através de manuscritos e marginalia. Os primeiros sofriam alterações ao ser transcritos pelos copistas e assim caracterizavam uma espécie de escrita colectiva. Os segundos eram anotações realizadas pelos leitores nas margens das páginas dos livros antigos, permitindo assim uma leitura não-linear e individualizada do texto. A “falha” existirá aqui, enquanto anotação particular da artista sobre uma possível história universal da contagem do tempo.

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